25.11.13

Tudo que vai deixa memórias...



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Estava eu pensando no que mais sinto falta da Itália e no que ganhei voltando ao Brasil:

Itália - o que deixei
- Saudade das tardes dos finais de semana à base de vinho caseiro, presunto de parma e queijos nos lugares mais simples e inusitados da Toscana.
- Ahhh aquele cheiro forte e o sabor exótico dos pratos à base de Tartufo (trufas)!! E poder comer todos eles de graça ao ser voluntária na Festa do Tartufo de San Miniato (Pisa)!!!
- Os passeios pelos campos com meu filhote 4 patas Deo, nossas aulas de Agility e sentir seu peso sobre minhas pernas ao dormir.
- Ver os infinitos campos de girassóis no verão e as folhas amarelo-vermelhas do outono.
- Comer muita pizza Margherita, detonar a mordidas gulosas o queijo parmesão e perfumar a casa de doce ao fazer Crostata de amora ou figo.
- As alcachofras, cerejas, figos, caquis e tantas outras frutas do vizinho, do amigo, da tia ou colhidas em alguma plantação alheia.
- Sair pelos bosques a colher aspargos selvagens, amoras sem fim, funghi diversos, castanhas e flores do campo.
- Água na boca de pensar no café da manhã com um verdadeiro e espumoso cappuccino, acompanhado de algum folhado de maçã ou frutas vermelhas.
- De jogar carta - Scopa ou Scala 40 - com os amigos no bar antes de ir para a noitada.
- Saudade do muro em frente ao Decris Pub - ponto de encontro e lugar onde jogavamos Carta, Totó e muita conversa fora.
- As minhas alunas da 3a idade que eram também como avós, mães, amigas, irmãs. E de como elas se divertiam quando eu tentava ensina-las a sambar!!
- E os sorvetes? Aqueles cremosos e coloridos de fazer qualquer pessoa abandonar a dieta!
- Claro, não posso esquecer dos amigos que fiz!!! De como nos divertiamos, do carinho, do apoio que recebi de todos eles.

Por outro lado....
- Não tem aquele inverno frio que dura 7 meses no ano, transformando meus dias em curtos, cinzas e gelados.
- Ganhei o açaí e mais uma enorme variedade de frutas exóticas. Também a tapioca e a canjica doce.
- E a picanha? E a cerveja estúpidamente gelada até no mais rigoroso inverno? Muito melhor que uma Heinecken praticamente em temperatura ambiente!!!
- O queijo minas e o pão de queijo. Churrasquinho. Pastel. Caldo de cana. Água de coco.
- O azul do mar de Cabo Frio e o verde da Serra de Ibitipoca. O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.
- A alegria do Carnaval, do Reveillhon e das rodas de samba.
- Sem falar da cumplicidade e do amor dos amigos de tantos anos... Alguns em minha vida há mais de 20 anos!!! Amigos estes que estiveram ao meu lado mesmo não podendo atravessar o oceano para me abraçar, que estiveram presentes nos momentos difíceis mesmo com toda distãncia, que transformaram meu dias em luz quando eu me sentia apagada.

Sei que um pedaço de mim sempre vai estar lá... Sei que meu pensamento de vez em quando vai falar comigo em italiano. Mas o mais importante disso tudo é que tenho certeza de estar hoje exatamente onde gostaria de estar!!

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4.7.13

O Peixe e o Mar


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Uma vez pediram a um peixe para falar do mar.
- Fala-nos do mar – disseram-lhe.
- Dizem que é muito grande o mar – respondeu o peixe. Dizem que sem ele morreríamos. Não sou o peixe mais indicado para vos falar do mar. Eu, do mar, o que conheço bem são só estes dez metros à superfície. É só deles que vos posso falar. É aqui que passo o meu tempo, quase sempre distraído. Ando de um lado para o outro, à procura de comida ou simplesmente às voltas com o meu cardume. No meu cardume não se fala do mar. Fala-se das algas, das rochas, das marés, dos peixes grandes e perigosos, dos peixes pequenos e saborosos e de que temperatura fará amanhã. O meu cardume é assim: eles vão e eu vou atrás deles.
- Mas tu, que és peixe, nunca sentiste o mar?
- Creio que o sinto, às vezes, ao passar-me nas guelras. Umas vezes sinto-o, outras não. Às vezes sinto-o, quando não me distraio com outras coisas. Fecho os olhos e fico a sentir o mar. Isto tudo de noite, claro, para que os outros não vejam. Diriam que sou louco por dar tempo ao mar.
- Conheces o mar, portanto. Podes falar-nos do mar?
- Sei que é grande e profundo, mas não vos quero enganar. Sei de peixes que já desceram ao fundo mar. Quando os ouvi falar percebi que não conheço o mar. Perguntem-lhes a eles, que vos saberão falar do mar. Eu nunca desci muito fundo. Bem, talvez uma ou duas vezes… Um dia as ondas eram tão fortes que eu tive de me deixar levar muito fundo para não morrer. Nunca lá tinha estado e nunca esquecerei que lá estive. Apenas vos sei falar bem da superfície do mar…
- Foi mau, quando desceste? Por que voltaste à superfície?
- Não foi mau. Foi muito bom. Havia muita paz, muito silêncio. Era como se fosse lá a minha casa, como se ali eu estivesse inteiro.
- Por que não voltaste lá ao fundo? Por preguiça?
- Às vezes acho que é preguiça, outras vezes acho que é medo.
- Medo? Mas tu não disseste que era bom? Medo de quê?
- Medo do desconhecido, medo de me perder. Aqui à superfície já estou habituado. Adquiri um certo estatuto para mim mesmo. Controlo as coisas ou, pelo menos, tenho a sensação de as controlar. Lá em baixo não sei bem o que me pode acontecer. Estou todo nas mãos do mar.
- Tiveste medo, quando chegaste ao fundo do mar?
- Não tive medo algum. Era tudo muito simples… E no entanto agora tenho medo… Mas eu não cheguei ao fundo do mar! Apenas estive menos à superfície.
- E que dizem os outros, os que lá estiveram?  
- Dizem coisas que eu não entendo. Dizem que é preciso ir para perceber. E dizem que nada há de mais importante na vida de um peixe.
- E explicam como se vai?
- Aí é que está. Explicam que não se chega lá por esforço, que só podemos fazer esforço em deixar-mo-nos ir. Que é só o mar que nos leva ao mar.
Então veio uma corrente mais forte que o fazia descer. O peixe tentou lutar contra ela com quantas forças tinha, à medida que via distanciarem-se as coisas da superfície. Talvez para sempre… Mas depois fechou os olhos, confiou e já sem medo deixou-se ir.

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